quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PIRATAS DE GALOCHAS OCUPAM OCUPAÇÃO.

Ontem, na ocupação da Prestes Maia, assisti à terceira fase da Abertura de Processo do grupo e espetáculo Piratas de Galochas, uma peça simplesmente maravilhosa e imperdível.
Esses malditos bucaneiros recuperam, com maestria, algo que se havia perdido: o LUGAR, propriamente falando, da arte no cotidiano. Estão cercados dele, fazem parte dele e são a expressão dele. O aparato dos corpos que ocupam e garantem o espaço da comunidade, garante também a realização da peça e expressam-se, sensivelmente, por todo o roteiro. Parabéns ao Tchello, ao Presto e ao grupo pelo resultado de cena. Raramente se vê uma comunicação tão magnífica e explícita com o público!

O teatro ocupava, na ocupação, um lugar efetivo para a arte, com um surpreendente, eclético e numeroso público.

As crianças, prova dessa presença do cotidiano, demonstravam a todo momento saber onde cairia a pesada espada, para não se machucar; sabiam que a Nina iria tocar acordeão, e que ela estava de barba, e ficaram preocupados quando caiu, pois não estava no roteiro, a placa de eucatex sobre a performance do Barba Molhada. Perguntavam-me, sorrindo, se eu era o pai do Presto. E, claro, a todo momento iam contando o final da peça e antecipando a próxima cena, para revolta de outra parte do público...
Tudo assim como ali é o normal: entrando e saindo, assustando, chorando e fugindo… O público não apenas ria, mas torcia pelos personagens… Puro teatro! As lutas com boas propostas de coreografia (ainda a apurar na realização), luz e imagens muito cativantes…
Notável o debate final, onde intelectuais e alunos da USP, militantes ligados a partidos ou movimentos, moradores do prédio - entre eles, trabalhadores, donas de casa, donos de casa (pelo menos quatro mães/pais ficaram com seus bebês no colo assistindo a peça e debatendo) e jovens e crianças, dezenas deles, alguns já integrados como personagens ou técnicos.
E, claro, os próprios atores, numa conversa onde, coisa rara hoje em dia, percebia-se uma real troca de informação: uns ouviam os outros e ninguém parecia portar um livrinho de frases feitas sobre tais ou quais conceitos que os conceitólogos acham importantes.
A crítica formal de uma estudante de teatro era tão material e pertinente quanto o comentário de um ocupante do prédio, sobre a expressão do espaço real ali no espaço cênico, que, dizia este morador, era cênico, mas também real!
Talvez os teóricos de teatro em geral se surpreendessem com a simplicidade que uma profunda discussão sobre teatro pode adquirir.
Excelente dramaturgia, sensível e sem desperdício de personagens, intervenção musical e performance, numa peça cansativa (fisicamente para os atores) onde a leveza consegue permanecer até o final.
Destaquem-se a história do “Estado dos Bucaneiros” e a escolha das formas de governo, uma delícia e divertida aula de filosofia política moderna, onde parecem tomar vida Hobbes, Rousseau e os Federalistas; e a cena da assembleia, um verdadeiro primor de sensibilidade, com ponto alto na atuação do Tchello.
E, claro, a cordialidade, carinho e respeito com que fomos recebidos na comunidade da Prestes Maia, que desde a entrada, percebia-se, mostrava-se orgulhosa e satisfeita da realização!
Muchas gracias, camaradas, pela carinhosa recepção de nós, como público, e nossos filhos, em seu cotidiano!
Realmente um grande espetáculo, como não via há muito tempo!
Fiquem atentos para a estréia, no início de novembro. Espero que o grupo divulgue amplamente o evento, pois é um marco de originalidade nesse mar de mediocridade politicamente correta das salas oficiais...
Abraços a todos
Herci

PREPARO PARA 2ª ABERTURA DE PROCESSO

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